
Gosto de sentir o cheiro das pessoas a encharcar-me a roupa durante um abraço despedido.
Sentir-me livre do que me dá liberdade não me permite cair na hipocrisia de mostrar o sofrimento desmedido, por outro lado, não mostrando dá a quem observa uma frieza pura de coração falhado.
Arranjei a forma perfeita de mostrar: choro sozinha e depois conto que chorei.
É estúpido.
Porque haverei de esconder? Para quê esconder a pureza, o amasso, um lábio vaginal maior que o outro, a borbulha que teima em desenhar crateras na minha testa?
Não escondi. Chorei ao teu lado. Abracei-te com medo de te acordar e bebi água. "Inscrevi o Eusébio na natação".. duas vezes (sorrisos). Voltei para a cama e não mais dormi.
Acordaste e abraçaste-me. Bebeste água. Foste mijar. Deitaste-te ao meu lado e não mais dormiste. Ontem bebemos tanto álcool que os olhos tremiam a cada palpitar do coração.
Guardei aquele momento para quando precisar. Precisarei, de certeza.
- "Não gosto de te ver triste. Porque estás triste?"
- "Não te preocupes. Eu fico bem. Não te vou dizer porque estou triste, não interessa."
Interessa saber que a tristeza se manteve e irá manter. A coragem de partir suga-nos os momentos ricos de realidade e pisa-nos com a força de um gigante, deixando à vista as entranhas trespassadas e sangrentas. Torna-nos frágeis e visíveis e desprotegidos e abertos. Fazemo-lo como forma de nos afirmarmos e crescermos para um dia chegarmos a um estado de contemplação própria. Olhamos para trás e sorrimos. Durante todo o processo, sorrimos. Sorrimos e fortalecemos o espírito para nos preparar para o derradeiro dia.
Tenho sorte. Tenho muita sorte. Amo a família brejeira, pura e real campina que me circunda todos os dias.
No dia em que tudo acabar para mim, vou sorrir. Vou sorrir pela perfeição de cada momento vivido, por cada absorção visual, por cada abraço beijado e noites mal dormidas de sexo amante.
Vou sorrir por ter escolhido estar triste hoje.
Vou curar-me de amores mal amados, de lágrimas mal choradas, de discussões mal discutidas e, até mesmo, de palavras mal( )ditas.
Vou amar cada sentimento, palavra, pessoa, cor, edifício, janela, bicicleta e moribundo. Vou viver e deixar-me estar. Vou lutar. É o que se quer, não é?
"Aproveita enquanto podes!", é o que dizem os mal amados. Eles também aproveitaram o que viveram. E o que viveram não vivi eu, por isso.. aproveitar o quê? Estou a viver. Sou real. Não vou aproveitar, vou gritar porque estou viva! Vocês também o fazem. Aproveitar, aproveita-se as sobras do bacalhau para fazer roupa velha. A vida não se aproveita; vive-se, consome-se e esfrega-se na cara dos outros.
Hoje estou triste.
Hoje queria que fosse daqui a uns dias.
Hoje um velho persegue-me com o olhar como se me conhecesse sem conseguir lembrar-se de onde. Hoje olho para o velho desconhecido durante parte da viagem e escrevo suposições do que poderá estar a pensar.
Hoje apetece-me não parar de viajar. Hoje, durante 6 horas de viagem, desejo que se transformem em 20 as horas passadas sentada a olhar para o vazio recheado de campos verde abafado e casas suadas da marca das chuvas.
Hoje não levo nada comigo. Se pudesse, nem a mim levava. Estendia o meu corpo num dos 7 Jardins Botânicos e soprava o espírito até à Muralha da China. Assim, não sobrava nada. Já não havia lágrimas, olhares perseguidores, contemplações futuras e passadas ou palavras.
Hoje o céu está bonito. Tem caras disformes que enfrentam o sol fazendo caretas à medida que a Terra de move e as desfaz em mil e uma outras figuras.
Hoje a perfeição não existe porque estou triste mas caía bem um sorriso e um abraço "desses ossos honrados".
1 análises:
´Tá pouco bom ´tá!Parabéns!
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