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As luzes da minha casa vão-se apagando uma a uma sem avisar.
Pressiono o interruptor sem resposta e é nesse exacto momento que me apercebo que já não existe luz.
Quero leite. Abro o frigorífico e toda a comida da colega de casa está às escuras.
Será um fusível?
A forma lenta e audaz como as luzes se vão apagando faz-me compará-las a vidas que vão passando à minha frente. Uma a uma vão-se desvanecendo até um dia reparar que já não existem.
É curiosa a forma como me sinto. Vou viver e criar, sorrir e amar mas todas as decisões que tomo carregam uma bagagem bem pesada de dor. Curvo-me para conseguir carregar a mochila e por mais que me queira melindrar com isso não posso porque foi uma escolha. Uma decisão tomada com vontade e não por ter uma arma apontada ao coração (ou tinha?).
O truque é ter todos os dias escrito o porquê de o estar a fazer. Adoro uma boa dose de consciência sem exagerar na quantidade! Ter uma noção exacta dos frutos que posso colher é um passo em frente para o que me quero tornar, mesmo que o caminho ainda não esteja completamente visível e delineado.
Dá-me jeito ser assim. É útil na forma como sei que tenho de lidar comigo e não quereria ser de outra forma, ía ser mais doloroso. E Independentemente do que ouço, sei o quanto posso passar mal com esta decisão. Mesmo com tantas consequências, sei bem a única que me atormenta:
Voltar e não existir alguém.
O que mais custa é voltar para o que já não existe. Existe o corpo, a mesma linguagem mas as pessoas que deixei..
Imagino-me a passar pela minha melhor amiga na rua e a acenar com a cabeça. Deixa de haver os abraços ou os sorrisos, apenas um aceno e lembranças. De tudo o que deixei é ela a que mais me custou. Não por estar habituada à companhia mas porque sem ela já não sei existir.
A realidade de não ouvir a sua voz diariamente trespassa-me a alma com dor. Deixa-me impotente e lacerada. Será que tomei uma decisão fatal para nós?
Todos os dias, antes de apagar a luz, sinto-me como se estivesse de férias. Não me sinto a viver aqui ou incluída neste modo de vida. Sinto como se amanhã fosse acordar em casa e pudesse pegar no carro para ir ter contigo.
Descobri que odeio a mudança e que preciso mais de uma casa cheia do que pensava.
A luz do carro passa a ser a luz da bicicleta.
A luz do quarto passa a ser o sol por não haver cortinas.
A luz que me alimenta deixa de ser os amigos e a família e passo a ser só eu.
A luz do frigorífico não existe e a da casa-de-banho também não.
Estou a viver mais o que deixei do que o que tenho.
Passou um mês. Tenho medo. Tenho medo de perder o que construí.
Sinto que estou a perder.
Estou a perder os teu sorrisos e vídeos cansados.
Estou a perder a tua operação e sopa bem quente para recuperares.
O que me sustenta e abafa a dor é os sorrisos que me dás ao ouvir-te todas as manhãs.
Estou a perder-te. A ti e a ele.
Sinto que a nossa luz está a apagar-se e o que menos quero é carregar no interruptor e nada se dar. Dói-me o coração. Sinto-nos a morrer.
Quando chegamos a um ponto de equilíbrio e nos abanam a cabeça para acordarmos numa nova realidade é fácil olhar em volta e soltar a euforia.
O melhor em mim é poder questionar o que quiser sem que me afecte. Posso pensar na quantidade de situações que quiser que vivê-las só as viverei se acontecerem. Tenho uma escolha, escolho viver na altura certa o momento apresentado.
Não é um lamento, é um desabafo.
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