
Sentada na Praça do Rossio olho em redor.
Acção policial sobre um taxista, torres de luzes que servem para iluminar toda a cidade de Lisboa pela necessidade de apertar os cintos.
As ruas cheias, as lojas vazias.
Num trocadilho de sons entre buzinas de motards vestidos de pai natal e um frio de Setembro que não zumbe nos ouvidos, fumo um cigarro.
Balanceando-se pelas ruas vão pessoas tapadas com roupa, sacos de compras ou olhos de pobreza. Os edifícios estão escuros.
Lembro-me de vir às compras quando era pequena. Tinha uns 10/12 anos e as ruas brilhavam, os risos ouviam-se desde a Rua do Ouro à Rua Augusta e as pessoas andavam mais depressa para chegarem às lojas antes que tudo se fosse e ficassem com os cacos de roupa passada.
Hoje há uma praça vazia, as lojas esperam e as pessoas andam devagar sem pressa de gastar o pouco que têm.
Se coisas más trouxe a crise, arrecadou com ela algo talvez perdido há muito. Sem dinheiro há poucos presentes. Cada presente é escolhido a dedo, com isso vem uma preocupação maior não só no quanto se vai gastar mas também no presente a oferecer à tal pessoa.
A crise não trouxe só lamúrias, devolveu a humildade e a atenção.
Não há dinheiro, só esperança e, mesmo esta, esconde-se por vezes sem querer ser encontrada.
3 análises:
Muito bem...:)
Rigth on the bull's eye,que é como quem diz...sem dúvida!
Diz-se por aí que a crise abre novas oportunidades,não acredite,não é verdade,a crise traz desgraça e pobreza,é deprimente e cinzenta escura.No entanto,e por más razões,recoloca no consciente, coisas,hábitos,lugares,há muito arrumados lá para os confins do universo inconsciente.
Talvez seja o tempo de revisitar realidades de um outro tempo,reaprender que,por exemplo,vale-se pelo que somos e nunca pelo que temos.Talvez também mereça a pena interromper por um momento,a vertiginosa corrida contra o tempo,o festim hedonista do sempre em festa,porque amanhã quem sabe,e interrogarmos sobre para onde é que isso nos leva,sobre o que é vale ou não a pena.Há e sempre houve no mundo,na vida,uma gigantesca feira de vaidades,mas no limite somos todos iguais,obedecemos às mesmas regras do universo que nos pôs cá e que nos há-de levar,e a humildade e atenção para com o outro,como a Susana refere,fazem certamente parte das regras desse universo.
Adivinhe quem sou
Muito agredeço o comentário construtivo. Afinal sempre havia algo que se adequava ao que o Carlos escreve.
Todos entendemos o que foi escrito, tanto por mim como por si. No entanto, ao que parece, há muito poucos que se obrigam a confrontar com isso. Apesar de sermos todos "farinha do mesmo saco", há uma grande maioria que prefere imaginar que está dentro de um alguidar e continuar a sua vida como se só deles se tratasse, mesmo não tendo condições para cobrir o estrago. Lutam para não deixarem derreter o plástico que os cobre, em vez de se preocuparem em corrigir a sua atitude.
A farsa com que enfrentam o dia é a farsa em que se tornaram.
A crise revela a desgraça não só visual como espiritual. E não é por as pessaos serem afetadas pela mesma, mas sim por não mostrarem que, também elas, se tornaram pobreza.
As regras que o Carlos refere estão presentes e concordo em absoluto na retrospectiva necessária que apresenta, contudo, ainda há muita probreza a vir antes de as pessoas agirem com consciência do presente e não com a esperança e indiferença do passado.
Um beijinho.
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